Invisibilizados: a maior comunidade cigana da América Latina existe e resiste no sertão da Paraíba

18/01/2026 10:04:46


Em Sousa, programa de formação política da Funetec, IFPB e MDHC dá voz e ferramentas de cidadania aos idosos Calon, fixos em um território marcado pelo abandono e estigmas.

Longe dos estereótipos de nômades, os Calon de Sousa, na Paraíba, estão enraizados há mais de quatro décadas no mesmo território, formando a maior comunidade cigana da América Latina. 

Sua história no Brasil, no entanto, é muito mais antiga: chegaram ao país ainda no século XVI, no período colonial, entre os primeiros grupos ciganos deportados de Portugal para o Brasil. Enquanto o país abriga o segundo maior número de ciganos do mundo, esses paraibanos vivem uma contradição histórica: sua presença massiva (com mais de dois mil representantes na região) convive com uma profunda invisibilidade social e política. Foi apenas com a Constituição de 1988 que os ciganos começaram a ser considerados em políticas de inclusão, um atraso de séculos que reflete o estigma e a discriminação que os acompanham até hoje. 

Para os antropólogos, como a professora Maria Patrícia Lopes Goldfarb, que os estuda há anos, entender os Calon é pensar numa identidade étnica dinâmica, que não se perdeu, mas se transformou, usando a memória de um passado valorizado para afirmar sua ciganidade no presente, mesmo diante da necessidade de se fixar em um lugar.

A Voz da especialista

Maria Patrícia Lopes Goldfarb é antropóloga e professora associada da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com pós-doutorado pela UFF. Líder do Grupo de Estudos Culturais (GEC), dedica-se há quase duas décadas à pesquisa sobre os ciganos Calon, com ênfase em etnicidade, memória e identidade. É autora de obras de referência como "O Tempo de Atrás: um estudo sobre a construção de identidade cigana em Sousa-PB" (2004) e “Memória e Etnicidade entre os Ciganos Calon em Sousa-PB” (2013).

Em entrevista ao Portal Funetec, a pesquisadora destacou um paradoxo crucial para a comunidade: a necessidade de um censo atualizado para acessar políticas públicas esbarra na ética e na autodeterminação cultural dos próprios ciganos, que historicamente recusam ser contados. “Isso é uma dificuldade para os ciganos, porque hoje em dia precisa desse censo por conta das políticas públicas. Quanto mais pessoas, mais políticas públicas”, explica Goldfarb, ressaltando que a ausência de dados oficiais robustos, como os do IBGE, perpetua o apagamento estatístico.

Ela aponta que, apesar de iniciativas recentes de alguns ministérios e do governo estadual, os levantamentos ainda são parciais. O resultado prático dessa invisibilidade numérica, somada aos estigmas persistentes, é a falta de efetividade das ações no cotidiano. “Não adianta você criar políticas públicas se, quando chega na ponta, ela não se torna real. E é o que a gente observa em Sousa. No dia a dia, o que impera são as exclusões e as discriminações”, conclui a antropóloga, evidenciando o abismo entre a formalidade das leis e a realidade de vulnerabilidade extrema vivida pela comunidade.

A seca dos direitos: falta d'água, saneamento e oportunidades marcam vida dos Calon em Sousa

O quintal de Dona Maria Sarmento, a "Maria do Chá", já foi uma farmácia viva. Nele, o capim-santo acalmava, a erva-cidreira tranquilizava, a tumericuz curava a tuberculose e a graviola tratava a próstata. Era um saber herdado da avó, uma tradição de cura que atravessou gerações e manteve saudável uma comunidade inteira. Hoje, o que resta é um terreno ressecado e o retrato mais doloroso do abandono. "Eu me levanto de madrugada só pra ver meu quintal. Mas quando eu me levanto, eu fico tão triste que não tem água", desabafa, com a voz embargada, ao mostrar os pés de babosa e coentro mirrados. A falta crônica de água, uma violação de um direito humano básico, não só mata suas plantas, mas seca um pilar fundamental da cultura e da saúde Calon.

O drama de Dona Maria se repete em cada casa. Dona Tânia Figueiredo resume a situação com uma palavra: "água". E os prejuízos são totais. "Não tem água pra nada. Nada, nada, nada. Nem pra beber tem", denuncia. A escassez é tão extrema que a levou a beber, por necessidade, água salobra por semanas. Além da sede, falta tudo: saneamento básico, uma pracinha, uma creche.

A invisibilidade se traduz em ausência de infraestrutura e em oportunidades negadas. "Aqui a maioria das ciganas tudo sabe fazer as coisas. Só falta oportunidade. Ajuda que nós não temos", afirma, mencionando talentos com costura e crochê que poderiam florescer em uma cooperativa, mas que permanecem adormecidos.

Para Francisco Soares Figueiredo, o "Coronel", que nasceu e cresceu na comunidade, a trajetória é clara: "Mudou pra pior". A sensação é de que décadas de presença e até de apoio em épocas eleitorais não se converteram em dignidade. "Nós vivemos aqui e não temos saneamento básico. Nós não temos uma obra feita aqui por nenhum político de Sousa", declara, com a autoridade de quem testemunha a história. O abandono atinge até a estrutura familiar: sua filha, enfermeira com mestrado, aprovada em concurso, não consegue ser lotada na cidade para ficar perto dos filhos, enquanto ele e a esposa enfrentam problemas de saúde.

O cenário descrito é de uma exclusão estrutural, no qual o estigma fecha portas para o emprego formal e o poder público parece distante. O Coronel vê com preocupação o futuro da tradição. "Quando se acabar a raiz do povo cigano, esses mais jovens vão sofrer muito", reflete. No entanto, é justamente nesse terreno árido de dificuldades que um novo projeto começou a lançar suas sementes, prometendo regar não as plantas, mas a cidadania de um povo inteiro.

“Viva Mais Cidadania”: programa pioneiro forma idosos Calon em Sousa para romper invisibilidade e exigir direitos

Em um salão de aulas do Instituto Federal da Paraíba, Campus Sousa, um encontro histórico toma forma. De um lado, extensionistas e assistentes sociais. De outro, dezenas de idosos Calon, muitos pela primeira vez dentro de uma instituição de ensino. 

Esse é o cerne do Programa Viva Mais Cidadania, uma iniciativa pioneira do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) em parceria com o Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e com gestão administrativa e financeira da Fundação de Educação, Tecnologia e Cultura da Paraíba (Funetec). Seu objetivo é claro e transformador: capacitar pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, com foco na maior comunidade cigana da América Latina, em direitos humanos e funcionamento do Estado.

Ao longo de quatro encontros formativos, temas como saúde, educação, saneamento, trabalho e cultura foram debatidos, culminando em rodas de conversa onde as prioridades da comunidade foram formalmente registradas em áudio e vídeo para a produção de um documento oficial. “O problema comum a toda a comunidade é a falta d’água, trabalho e moradia digna”, afirma Paloma Miranda, assistente social do IFPB e coordenadora do projeto de extensão. “Hoje, os idosos reforçaram essas prioridades… Esse material será a base para um documento oficial, que tem como objetivo principal tirar os ciganos da invisibilidade.”

Para Paloma, que atua como ponte entre a instituição e a comunidade, o programa vai além da formação teórica. “Ele visa articular, mobilizar e formar pessoas idosas para que elas possam ter acesso a esses conhecimentos acerca dos direitos humanos e que, ao mesmo tempo elas também se articulem para organizar as principais demandas daquele território”, explica. Ela vê a iniciativa como um passo crucial para ecoar vozes há muito silenciadas. “A gente utiliza esse espaço como um instrumento de transformação social para articular essa participação política deles, de estimular esse protagonismo. Não fica aqui… Toma um rumo muito maior.” O envolvimento pessoal e profissional é profundo: “a Paloma (pessoa) foi transformada completamente no processo, com muita gratidão e emoção”.

Entre os participantes, o sentimento é de descoberta e esperança renovada. Dona Hilda, uma das idosas que acolhe o projeto de braços abertos, não hesita: “foi uma benção de Jesus”. Ela, que há mais de 30 anos vive na comunidade, viu no programa uma ruptura com o abandono. “Nunca. Nem ninguém nunca tinha visitado nós”, compara. Para ela, o grande aprendizado foi entender que “nós também temos o direito de falar, que a gente também somos tudo igual, que a gente podia falar com qualquer pessoa”. A iniciativa trouxe, acima de tudo, união e perspectiva. “Foi até bom que a gente fazia tempo que não se juntava, as pessoas da comunidade não se juntavam. A gente se juntou, “as meninas” olharam nossos problemas.” Sobre a equipe, sua avaliação é categórica: “o trabalho da Natália, do Pereira e da Paloma? Muito bom, muito bom. Eu dou nota mil”.

Pereira Alcântara, supervisor comunitário e uma das lideranças jovens da comunidade, enxerga o programa como um “grito de socorro” que se transformou em ferramenta de diagnóstico e luta. “Aqui a gente fez um raio X do que é as dificuldades da comunidade”, afirma. A falta d’água permanece como a “tecla mais apertada”, um problema que desencadeia outros: idosos que deixam de tomar medicamentos para não dormir e perder a chance de coletar água; recursos escassos desviados da alimentação para comprar caros e inseguros caminhões-pipa. Mas o programa também joga luz sobre outras feridas profundas, como o preconceito estrutural que impede o acesso ao emprego. “A gente tem na comunidade diversos jovens que são formados, possuem pós-graduação, mas quando chega para ocupar cargos básicos, o pessoal quando olha ali o currículo e vê a rua (da comunidade), é descartado. Isso ainda nos entristece muito”, relata Pereira, evidenciando a dor que persiste mesmo diante da capacitação. Sua visão, no entanto, é de resistência ativa: “a gente não pode baixar a cabeça, vamos lutar até o último dia do suspiro. Dias melhores virão”.

Fechando o ciclo institucional, o professor Francisco Nogueira, “Chicão” como é conhecido, diretor geral do IFPB, Campus Sousa, contextualiza a iniciativa como parte essencial da missão da instituição. “Nós, enquanto instituição, temos a obrigação institucional de trazer para dentro as comunidades mais pobres e aquelas que ficaram historicamente à margem, e a comunidade cigana é uma dessas”, declara. 

Para ele, a parceria com a Funetec para protagonizar tal projeto “é uma questão de honra”. Chicão vai além da visão assistencialista e propõe um diálogo de mão dupla, onde a academia também tem a aprender. “É uma comunidade com quem nós precisamos aprender algumas formas de como se vive”, reflete.

O diretor também alerta para a responsabilidade ética da inclusão: “a gente quer também ter esse cuidado de que a escola se prepare para receber essa comunidade com toda a sua cultura, seu jeito de vida… respeitando e vivendo com eles esse momento”. O programa, portanto, não é um fim, mas um começo. A ponte construída pelo Campus vai além dos muros, ecoando as demandas por água, documentação e dignidade, e plantando a semente de que a maior comunidade cigana das Américas pode, finalmente, escrever seu próprio futuro com as ferramentas da cidadania.

A atuação do MPF como aliado na luta por direitos do povo Calon 

A luta pela visibilidade e por direitos básicos ganha um aliado fundamental no Ministério Público Federal (MPF). O Procurador da República José Godoy, especialista em Direito Sanitário e com atuação voltada para povos tradicionais, tem sido um interlocutor direto da comunidade Calon. Para ele, o diálogo não é uma opção, mas o ponto principal de uma atuação constitucionalmente adequada. “O direito é das pessoas e dos grupos envolvidos. Então, a implementação desses direitos só será adequada se tivermos um diálogo intenso”, afirma. Godoy estabelece um princípio claro em sua atuação: “eu não faço nenhuma reunião para tratar de questões dos ciganos sem eles. Nada é sobre eles sem os ciganos juntos”.

Essa postura rompe com uma histórica burocracia que tentava justificar a inação. “Os órgãos diziam que não trabalhariam com os ciganos porque eles se desentendiam muito, mas tinha sempre um motivo, uma forma de escapar, de deixar de fazer o seu papel e colocava a culpa exatamente nos ciganos”.

Da invisibilidade à imortalidade histórica

O que emerge da terra seca de Sousa, regada agora pelo conhecimento e pela articulação política, é muito mais que uma lista de demandas. É a reafirmação potente de um projeto de existência. Os Calon, com seus mais de 40 anos de raízes fincadas no sertão, demonstram que resistência é também permanência. Eles não são um povo do passado, congelado em estereótipos; são um povo do agora, que usa a memória como âncora e a cidadania como ferramenta para esculpir o futuro.

O programa Viva Mais Cidadania, a ponte construída pelo IFPB e pela Funetec, e o diálogo firme com instituições como o MPF, são mais do que políticas públicas. São atos de reconhecimento. São a tradução, em gestos concretos, de um princípio fundamental: o direito à história própria.

A maior comunidade cigana da América Latina não pede para ser folclore ou curiosidade exótica. Exige, com a dignidade de quem carrega séculos de história, seu lugar de sujeito na narrativa do Brasil. Garantir água, saneamento, trabalho e moradia à comunidade Calon de Sousa vai além da prestação de um serviço. É reparar uma dívida histórica de invisibilidade. É, em última instância, proteger e celebrar um fragmento indispensável da identidade plural e profunda do país. 

Enquanto Dona Maria do Chá puder regar suas ervas medicinais, enquanto o Coronel ostentar com orgulho seu ouro e suas tradições, e enquanto Pereira e os jovens lutadores erguerem a bandeira do conhecimento, o Brasil estará, um pouco mais, se reconhecendo em sua totalidade. A luta deles pela vida digna é a luta de todos pela imortalidade de uma cultura que resiste, e que, finalmente, não mais se cala.

 

TEXTO: Ana Cláudia Cardoso e Vitória Lisboa (Estagiária)

FOTOS: Renato Britto

 

 

 

 





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