
A iniciativa é uma união entre Funetec, IFPB, Campus Sousa, e lideranças locais que juntos promovem a troca de saberes entre agricultores e a academia
Símbolo de tradição dos agricultores familiares que convivem com clima escasso do semiárido, as sementes da paixão representam a identidade e diversidade dos povos que colhem da terra o alimento que vai direto para a mesa. Foi com o intuito de preservar, multiplicar e valorizar essa tradição que nasceu o Projeto de Extensão "Sementes da Paixão: a sabedoria da resistência no sertão paraibano", uma parceria entre o Instituto Federal da Paraíba, Campus Sousa, com o apoio administrativo e financeiro da Fundação de Educação, Tecnologia e Cultura da Paraíba (Funetec).
Presente nos municípios de Sousa, Aparecida, Vieirópolis, Triunfo e Cajazeiras, o projeto consiste em fortalecer o processo de mobilização dos agricultores familiares do sertão paraibano na realização do plantio das sementes, que são passadas de geração em geração, também conhecidas como “Sementes Crioulas”. Essas sementes resistem à seca, não possuem mutação genética e não necessitam de agrotóxicos. As sementes já estão adaptadas ao clima, ao solo e ao volume de chuva do local onde são plantadas. Com isso, as sementes apresentam boa performance, mesmo em anos de seca prolongada.

Iniciada em janeiro de 2025, a parceria uniu o litoral e o sertão com um propósito: a retomada do banco de Sementes Crioulas, aproximando o IFPB Campus Sousa das comunidades e estimulando a agricultura familiar no Semiárido, como afirma o superintendente da Funetec, Rodrigo Barreto.
“A Funetec reafirma, com este projeto, seu compromisso com iniciativas que unem conhecimento, inclusão produtiva e desenvolvimento social, além do compromisso original de fortalecimento do Instituto Federal da Paraíba. É a partir de parcerias como essa com o Campus Sousa do IFPB que fortalecemos iniciativas que geram verdadeiro impacto para as comunidades do semiárido paraibano.”
Durante muitos anos, os intensos períodos de estiagem levaram os agricultores sertanejos à situação de fome e êxodo rural. De acordo com o professor, pesquisador e diretor-geral do Campus Sousa do IFPB, Chico Nogueira, o Instituto apoia todo esse processo, não apenas por ser uma tradição familiar, mas por se tratar de um processo de valorização de um patrimônio genético dos povos que moram na região.
“Para nós é fundamental a valorização desse patrimônio, inclusive como estratégia de resistência às mudanças climáticas, já que estamos falando de uma série de variedades de sementes que são cultivadas no semiárido há muito tempo, e tecnicamente, elas são mais adaptadas que outras culturas que são produzidas e cultivadas fora do território do semiárido”, destacou o Prof. Chico Nogueira.
Esse projeto trata especificamente de três questões importantes e fundamentais para sua realização. Ele dá destaque à valorização da identidade do povo, à cultura e a uma questão técnica que vai ajudar a mitigar os efeitos das mudanças climáticas no semiárido, região climática e geográfica que ocupa cerca de 15,3% do território nacional e que abrange oito estados no Nordeste e Minas Gerais.

Ainda segundo Chico Nogueira, na prática, algumas estratégias foram adotadas dentro do projeto: uma delas é a retomada do processo de mobilização dos agricultores em torno do tema das sementes, anteriormente realizado pela Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba), que era de mobilizar as pessoas em torno do tema das sementes, promovendo encontros de debate e troca de experiências de conservação e preservação das sementes. “Com isso, realizar a formação necessária para a conscientização sobre a importância da Semente da Paixão para o semiárido”, completou.
A partir da formação, a segunda estratégia é a identificação das sementes que ainda não foram contaminadas com a produção das sementes transgênicas, resultando em um trabalho intenso de laboratório, identificando quais são as sementes que estão geneticamente protegidas de transgênicos.
Após essa identificação, a terceira etapa será a implantação dos bancos de multiplicação dessas sementes, reconhecendo as variedades que interessam aos agricultores, e, a partir daí, criar cinco campos de multiplicação, com áreas irrigadas usando a tecnologia de irrigação com placas e sistema solar, para que os agricultores possam ter a possibilidade de produzir essas sementes. “Essa etapa é fundamental para abastecer os bancos de sementes, para que, num futuro não tão distante, esses estoques sejam comercializados para o governo do estado em forma de edital, para que o governo possa distribuir para outras regiões sementes sem contaminação”, concluiu.
Com isso, a iniciativa estadual deixa de comprar de empresas privadas e passa a comprar essas sementes dos agricultores familiares que produzem no seu quintal e doam essas sementes para outros agricultores, fortalecendo toda uma rede de relações de agricultores do território, valorizando os processos locais.
O professor e coordenador, Hugo Vieira, destaca que o projeto é importante por resgatar a prática dos bancos de sementes, uma tradição dos agricultores familiares em guardar suas sementes para o ano seguinte, por serem sementes com a carga genética adaptada a cada local e resistentes a pragas e doenças, que atacam periodicamente as culturas vegetais alimentícias.
“Elas são produzidas em boa quantidade e qualidade, garantindo a segurança alimentar dessas famílias, não sofrendo modificações ao longo do tempo, já que estamos falando de variedades que foram selecionadas pela natureza e pelos guardiões ao longo de décadas na mesma família”, comentou.

Por conta da grande incidência de sementes de qualidade inferior, grande parte dos agricultores familiares locais têm perdido sua produção. Por isso, o Projeto “Sementes da Paixão” tem a missão de garantir a sustentabilidade ambiental e biológica dessas sementes, assegurando comida saudável e a autonomia dos agricultores.
Texto: Renato Britto
Fotos: Acervo Sementes da Paixão
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